Você já deve ter ouvido a palavra FANFIC, ou então você é aquele que já leu, ou ainda mesmo aquele que ainda lê. Bem para aqueles que ainda leem, já devem ter notado um fenômeno preocupante e até mesmo revoltante: parece que em sua maioria, as histórias saíram de uma mesma impressora. A mocinha tímida que “nunca sabia que era bonita”, o bad boy traumatizado que “nunca amou ninguém até agora”, o triângulo amoroso que ninguém pediu e, claro os plots twists de traição, grávidez e perda de memória e o clássico, não podemos esquecer, Dono do morro loiro de olhos azuis ou até mesmo coreano. Tramas essas reciclada, descrições copiadas e reviravoltas previsíveis.
A criatividade, que sempre foi o coração das fanfics; parece ter entrado em colapso. Mas o que aconteceu? Por que, de repente , escrever fanfic parece mais uma corrida por engajamento do que uma expressão de amor por escrita e histórias.
O canal Senhorita Sunny Cat resumiu bem a situação no vídeo ” Esse é o problema com as Fanfics”. O autor comenta como muitas histórias deixaram de ser escritas por prazer e passaram a ser produzidos como conteúdo, quase como vídeos curtos de redes sociais: rápidos, virais, fáceis de consumir. A lógica da internet acabou transformando as fanfics em um produto padronizado; onde o importante não é mais criar algo novo, e sim repetir o que já dá certo. As mesmas tramas, os mesmos arquétipos, os mesmos títulos com “Entre o ódio e o amor”. E quando algo diferente aparece, é engolido pelo algoritmo ou pelo desinteresse dos leitores acostumados com ao “mais do mesmo”.
Infelizmente, há um sintoma da crise criativa que são as fanfics que acabam virando chacota de tão absurdas que são. Algumas se tornam memes tão rapidamente que perdem até o propósito original. Quem nunca viu no X, antigo Twitter, no TikTok ou Instagram aquelas fanfics absurdas – como os famosos:
Essas fanfics acabam viralizando não pela qualidade, mas pela vergonha que provocam e pelas risadas.
É o extremo oposto do que o gênero representa: a ideia de se conectar com uma história e dar a ela um novo sentindo.
Mas, nesse cenário, a linha entre humor e deboche fica tão tênue que o riso substitui qualquer reflexão sobre escrita, em alguns casos, promovendo veolência desnecessária para o usuário leitor.
Há alguns anos, escrever fanfic era uma forma de libertação, quando éramos fãs de algo e não gostávamos do final de um casal, ou de um acontecimento, então lá estavam as plataformas para soltarmos nossa criatividade. Hoje, em muitas plataformas, virou uma competição disfarçada: curtidas, visualizações, comentários; tudo conta. E é assim que nasce a crise criativa coletiva: autores escrevem não o que querem, mas o que esperam que “venda”.
Os plots ousados são descartados por medo de rejeição, e o espaço da experimentação é ocupado por fórmulas seguras. O problema é que criatividade não floresce sob pressão. E quando o ato de criar se torna uma obrigação, o resultado é uma escrita automática, fria e sem alma, ou seja, fracassada e cansativa.
As fanfics virais de tom cômico; as que circulam em prints no Instagram e TikTok; acabam afetando até quem escreve com seriedade. A exposição constante de histórias ridicularizadas cria uma cultura de medo e vergonha.
Muitos autores desistem de publicar por receio de também virarem piada. Esse comportamento cria um ciclo perigoso: quanto mais se ri das histórias “ruins”, menos pessoas se arriscam a escrever — e mais o cenário se enche de repetições. Assim, aqueles que realmente querem escrever coma paixão de um verdadeiro fã, ou até os originais, desistem antes mesmo de tentar. Como por exemplo essas barbaridades:
Enquanto plataformas como Wattpad e Spirit se tornaram o palco da espontaneidade (e, às vezes, do caos criativo), o AO3 — Archive of Our Own — costuma ser visto como o “santuário” das fanfics bem escritas.
Mas será que essa reputação é justa?



O Wattpad e o Spirit são plataformas da “velha guarda”, criadas no mesmo ano, com funcionalidades parecidas até demais, foram os mais famosos a abrir as portas para os escritores iniciantes, assim sendo seguido pelo AO3 em 2008. Do Wattpad já saíram adaptações, e best sellers, como o famoso “Cinquenta Tons de Cinza” que nada mais uma fanfic de Crepúsculo publicada no Wattpad; outros que se tornaram bem famosos são: After, uma fanfic sobre o cantor/ator Harry Styles, publicada pelo Wattpad e se tornou uma série de livros e filmes; The Last Coffee fanfic de um romance entre Camila Cabello e Lauren Jauregui, que faziam parte do Fifth Harmony, publicada pelo Spirit Fanfics.
Além de o Wattpad se tornar famoso pelos prêmios a autores. O Prêmio Wattys, um concurso anual que reconhece histórias de alta qualidade com selos e oportunidades de reconhecimento. Os vencedores podem receber prêmios em dinheiro, e histórias premiadas também têm prioridade em parcerias com editoras ou produções para TV/cinema.
As histórias do AO3 costumam ter uma escrita mais cuidadosa e organizada. Os autores geralmente revisam o texto antes de postar e usam “beta readers”, pessoas que ajudam a revisar e aprimorar a história. Além disso, o site é conhecido pelo seu sistema de tags detalhadas, que informa tudo o que o leitor precisa saber antes de começar — o tipo de relacionamento, o gênero, os gatilhos e até o tom da narrativa.
Essa estrutura faz com que o AO3 pareça quase um arquivo literário, onde as fanfics são tratadas com o mesmo respeito que obras publicadas. A comunidade também é mais madura e acolhedora, valorizando a criatividade e o cuidado com os leitores. Por isso, muita gente vê o AO3 como o espaço onde as fanfics alcançam seu melhor potencial — não porque os autores sejam “melhores”, mas porque o ambiente incentiva qualidade, liberdade e respeito pela escrita.
A crise criativa das fanfics não significa que o gênero morreu — apenas que ele está em transição, mesmo que pareça que para pior. A busca por engajamento, os memes e a repetição de fórmulas são sintomas de uma comunidade que ainda está se redescobrindo. Escrever continua sendo um ato de coragem, mesmo em meio ao caos. No fim, talvez a resposta não seja “voltar ao que era”, mas reaprender a escrever com propósito — lembrar que fanfic é, acima de tudo, amor por histórias. E que, mesmo quando o enredo parece clichê, que a escrita está ridícula, os erros ortográficos estão te matando, e a criatividade do autor pareça ter vindo de um pântano lamacento de cocô, o coração de quem escreve ainda pode ser original e bons ao mesmo tempo.
Fontes:



