O Transporte Público de São Luís: a leitura dos passageiros

Acordar antes das cinco da manhã é normal para os habitantes da Grande Ilha, visto que, para chegarem no trabalho, na escola ou na faculdade, precisam se deslocar por grandes percursos das suas residências até o destino final. Dessa forma, a mobilidade urbana se manifesta: carros próprios, carros e motos de aplicativos, bicicletas ou até mesmo a pé se apresentam como opções de deslocamento, entretanto, segundo a pesquisa de 2023 feita pelo Painel de Mídia e Consumo, 55,69% de 1.503 entrevistados utilizam o ônibus como principal meio de transporte.

Observando a perspectiva levantada pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte – SMTT, citado pela bacharel em Engenharia Civil Poliana Lima Rocha em 2019, os dados apontam que os ônibus transportam 11.016.000 passageiros por mês e 372.000 passageiros diários. Nesse contexto, os ônibus se dividem em três modalidades de linhas: alimentadoras, circulares e troncais. A tabela a seguir demonstra suas classificações e a quantidade de linhas as quais circulam em cada categoria.

AlimentadoraCircularesTroncais
Garantem o acesso de um bairro ou região específica para um terminal de integração.Trafegam entre as avenidas principais da cidade, sem atender necessariamente a um bairro ou região específica.Trafegam do bairro ou região específica, passando pelas principais avenidas da cidade até chegarem no terminal de integração.
Compostos por 45 linhas de ônibus.Compostos por 6 linhas de ônibus.Compostos por 83 linhas de ônibus.

Fonte: Portal da Transparência.

Após essa contextualização, ao realizar uma pesquisa sobre a distância entre o bairro do Olho d’Água até a Universidade Federal do Maranhão, usando o transporte público, o Google Maps informa que o usuário leva, em média, 01h00 a 01h30m. Contando com os frequentes atrasos dos ônibus, o trânsito de São Luís e outras intempéries e circunstâncias diárias, esse tempo pode se estender. É na demora ou no tédio da locomoção que nasce o leitor dos transportes públicos. Entre obras literárias — romance, policial, mangás, quadrinhos — e as leituras escolares ou acadêmicas — artigos científicos, anotações. Entre as constantes paradas e o trânsito, o leitor mantém-se no reino da fantasia ou nas teorias dos pesquisadores.

Para enfatizar essa afirmação, observe a figura abaixo, retirada da pesquisa Retrato de Leitura no Brasil, de 2024. Os dados apontam que, apesar de não se considerado o ambiente principal em que os leitores costumam ler, ainda se encontra, dede 2007, na quinta posição.

Fonte: Retrato de Leitura no Brasil (2024).

Esses dados são colocados em práticas por dois projetos: Vi Você Lendo e Pessoas Lendo no Transporte Público, ambos possuem o objetivo de mostrar imagens de leitores em transportes públicos, servindo como inspiração para o público que acompanha as redes sociais de que a leitura pode ser realizada e apreciada em diversos locais. Entre as multidões do horário de pico ou a calma de um ônibus vazio passando entre as ruas e avenidas da cidade, esses leitores podem fazer parte dos indivíduos do transporte público. Além disso, para os leitores que, por alguma razão dentro de suas rotinas, perderam o hábito da leitura, essas imagens podem ser a chave para abrir a porta e ler algumas páginas do livro que tanto desejava.

Fonte: Vi Você Lendo (2025)

A leitura silenciosa, mas feita em um espaço público (a biblioteca, o metrô, o trem, o avião), é uma leitura ambígua e mista. Ela é realizada em um espaço coletivo, mas ao mesmo tempo, ela é privada, como se o leitor traçasse, em torno de sua relação com o livro, um círculo invisível que o isola.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador (1998).

A experiência deste autor, como leitor e usuário do transporte público, exemplifica essa realidade cotidiana discutida. Residente no bairro Cruzeiro do Anil, a cerca de uma hora do Centro de Ciências Sociais (CCSO), segundo o Google Maps, todas as manhãs e todo começo de tarde faz presença nos ônibus troncais (Sol e Mar, Olho D’Água, Divineia, Ipem Turu, Cidade Olímpica/Ipase) e do ônibus alimentador (Campus) para fazer o trajeto entre a UFMA e sua residência. É na soma dessas duas horas que dedico-me aos livros de ficção e/ou fantasia. Em uma semana, consigo finalizar um livro de, em média, 300 páginas enquanto passo pelas avenidas da Grande Ilha. Portanto, a leitura dos passageiros é, como indica Chartier, um círculo que isola o leitor das buzinas de carro, conversas paralelas e o trânsito da cidade para focar sua atenção nas palavras escritas e na história a ser contada.

Fonte: Pessoas Lendo no Transporte Público.
Heryallison
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