Riordanverso: a diversidade e as questões sociais tratadas nas obras de Rick Riordan

Existem muitos gêneros literários e uma infinidade de livros destinados aos mais diversos públicos e faixas etárias.

Dentre os leitores mais jovens, crianças de 9 ou 10 até os primeiros anos de adolescência formam o grupo infanto-juvenil, cujos gêneros mais famosos deste público é aventura, romance e fantasia. A procura de universos mágicos com criaturas fantásticos e cenários fantasiosos que fazem com que seus leitores queiram fazer parte dele também. Provoca uma identificação em seu público de modo que quando lêem, reconhecem pedaços de si mesmos.

E é justamente por isso que o destaque hoje vai para Rick Riordan. Um escritor norte-americano que orginalmente foi professor de história e inglês, e em 2005 lançou o primeiro de uma saga de cinco livros: O Ladrão de Raios. A saga Percy Jackson e os Olimpianos (PJO) trata da história de um menino disléxico que ia mal na escola (principalmente pela dificuldade das instituições e da comunidade escolar adaptarem-se a condição dele) e então Perseus (ou Percy, como ele mesmo prefere ser chamado) Jackson descobre que é um semideus filho de Poseidon. Ao longo dos livros, ele faz amizades e inimizades com diversos personagens que tem seus próprios conflitos para lidar.

Em uma saga spin-off chamada Heróis do Olimpo (HDO), somos também introduzidos ao Acampamento Júpiter, o acampamento de semideuses romanos. Lá moram os filhos das contrapartes romanas dos gregos, e os semideuses gregos e romanos a muito haviam se separado pois, quando juntos, romanos e gregos travam guerras.

Saindo um pouco de PJO, outra saga que vale a pena ler é As Crônicas dos Kane (CDK). Somos introduzidos a dois irmãos, Carter e Sadie Kane. Carter é o filho mais velho de Julius e Ruby Kane. Ruby faleceu a muito tempo e os avós maternos de Carter tomaram a guarda de Sadie, que é a mais nova da família. Sendo Julius um arqueólogo, Carter viaja com ele e tem sua educação regida por seu pai, enquanto sua irmã estuda em uma escola e vive com seus avós maternos. Ela e Carter só se vêem duas vezes ao ano, e é no natal, quando Julius e Carter aparecem para uma visita que começa a aventura de Carter e Sadie. Eles descobrem que os deuses egípcios ainda estão por aí e que eles devem impedir o fim do mundo.

Voltando os holofotes para Boston e os contos de deuses nórdicos, temos a saga Magnus Chase e os Deuses de Asgard. Magnus é orfão e primo paterno de Annabeth (da saga PJO). Magnus vivia como um mendigo nas ruas, fugindo de seu tio Randolph, mas sua aventura começa ao salvar pessoas de um gigante de fogo. Por seu ato heróico, ele é levado para o Hotel Valhalla, para onde apenas os mais corajosos e destemidos guerreiros einhejhar vão, pois estão destinados à lutar no Ragnarok. Magnus descobre a identidade de seu pai, que é um deus nórdico (um vanir) e sai em uma missão para impedir o Ragnarok de começar, parar os planos de Loki e salvar o mundo. Ele conta (além da ajuda de alguns deuses) com o apoio de seus amigos e conselhos de sua prima.

Agora vem um ponto interessante sobre essas obras. Se você já assistiu os filmes da Marvel, é provável que já tenha ouvido falar do Universo Marvel. Dentre tantas obras mitológicas, há interação destes heróis de diferentes mitologias. É o chamado, Riordanverso, nome dado pelos fãs destas sagas maravilhosas que se encantaram ao ver que o Tio Rick, como é popularmente chamado no Brasil, desenvolveu e expandiu um universo de criaturas mitológicas e deuses (os chamados panteões) de modo que elas coabitem no mesmo universo sem interferir diretamente umas nas outras. Isso fez com que os fãs que se identificaram mas com um panteão do que com o outro possam facilmente interagir com um semideus ou mago egípcio ou einherjhar. Também permitiu a convivência ‘pacífica’ de diferentes crenças e religiões.

É válido lembrar que existem livros fora deste universo também escritos por este autor. O livro Labirinto de Ossos da saga As 39 pistas, conta a história de dois irmãos orfãos chamados Amy e Dan Cahill que ao irem ao enterro da sua avó, descobrem na leitura do testamento que podem receber uma quantia dinheiro ou embarcarem em uma aventura para a descoberta de um prêmio misterioso que os clãs de sua família procuram a séculos. E também, o livro único do autor chamado A Filha das Profundezas, sendo uma releitura de A Ilha Misteriosa e Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne. A protagonista, Ana Dakkar e sua turma, após sofrerem uma tragédia e terem apenas um professor acamado como adulto por perto, tem que se tornar uma tripulação para sobreviverem a tentativas de sequestro e emboscadas da escola rival. Ana também descobre as condições que levaram as mortes do sua família.

São livros incríveis, com personagens maravilhosos que trazem questões sociais de uma forma descontraída e natural mas sem perder sua seriedade e importância. Religião (Islamismo, Cristianismo, Politeísmo, Ateísmo), pautas LGBTQIAPN+ (Descoberta e negação de sexualidade, transfobia, utilização de pronomes e identidade de gênero), machismo, negligência parental, transtornos mentais, personagens PCD (pessoa com deficiência), abrangendo questões como família, acolhimento social e bullying e outros temas sociais.

Alguns personagens que destaco que não são os protagonistas mas que trouxeram sua bagagem de dilemas nas narrativas:

Hearthstone, um elfo surdo e mudo que aspira ser um mago e atua como figura parental/fraterna de Magnus. Ele ensinou à Magnus, a Língua de Sinais, mas Magnus não é totalmente fluente e a comunicação dos dois ás vezes tem mais de uma interpretação no ponto de vista do protagonista. Hearthstone encontrou em Magnus e Blitzen, uma família que o acolheu apesar de sua deficiência e apoiou os seus sonhos.

“Hearthstone! – […] – O maior mago de runas dos nove mundos! Sua bravura é lendária! Ele está disposto a sacrificar qualquer coisa pelos amigos. Superou os mais terríveis desafios[…]” (Magnus Chase diz em O Navio dos Mortos).

“[…] Hearthstone o enfrentou, enfretou seus piores pesadelos e saiu vitorioso, quebrando uma maldição, destruindo ódio com compaixão. Sem ele, nós não estaríamos aqui. Ele é o mais poderoso e mais amado elfo que conheço. Ele é meu irmão.” (Magnus Chase diz em O Navio dos Mortos).

Imagem do Pinterest – Hearthstone

“O segredo é estar à vontade com a metamorfose. O tempo todo. Tem que transformar o poder de Loki em seu poder.” (Alex Fierro em O Martelo de Thor)

Samira Al-Abbas e Alex Fierro, filhas de Loki. Também da saga Magnus Chase e os Deuses de Asgard, o dilema das irmãs está em aceitação de sua herança nórdica. Alex é de gênero fluído e assim como Samira, é uma metamorfa. A diferença está no modo como Alex aceita o que é e o que pode fazer com suas habilidades enquanto Samira teme seu lado herdado de Loki, pois não deseja se igualar ao deus das mentiras. Isso é ressaltado pelo modo como ao confrontar Loki, Sam perde o controle de seu próprio corpo enquanto Alex não é afetada. Em contrapartida, Alex tem problemas em confiar nas pessoas que tentam se aproximar dele, principalmente devido a sua infância conturbada que a levou a ser expulsa de casa e viver nas ruas.

“[…] Samirah… é por isso que ela consegue virar uma mosca. Ela é metamorfa como você.” Ah, ela é a filhinha do papai mesmo. Não gosta de admitir, mas herdou muitas coisas de mim: meus poderes, minha beleza estonteante, meu intelecto apurado […]“(Diálogo de Magnus e Loki em A Espada do Verão).

“[…] Posso mudar minha aparência para o que ou quem eu quiser. Mas meu gênero? Não. Não posso mudar por vontade própria. É realmente fluido, no sentido de que eu não controlo. Na maior parte do tempo me identifico como alguém do sexo feminino, mas ãs vezes tenho dias muito masculinos […]” (Alex Fierro em O Martelo de Thor).

Imagem do Pinterest – Alex Fierro e Samira Al-Abbas

“Guardar rancor é perigoso para as crianças de Hades. É nosso defeito mortal.” (Bianca di Ângelo aconselha Nico em Percy Jackson e a Batalha do Labirinto)

As questões de Nico di Ângelo, da saga Percy Jackson e Olimpianos e Heróis do Olimpo são muitas. O passado cujas memórias ele não possuía mais, a morte de seus parentes, ter sido forçado a crescer e amadurecer mais rápido para poder lidar com sua realidade de semideus e tudo isso acontecendo enquanto ele não conseguia entrar em consenso com sua sexualidade e com a pessoa que gosta e que não poderia ter. Nico é mais novo do que os outros heróis da saga a qual faz parte mas é um personagem intenso, que não sente as coisas pela metade. O que a leva a guardar rancores por um tempo ou ajudar seus amigos independente do que tenha que fazer ou qual seja o preço a se pagar.

“[…] Fácil para você dizer. Você é o menino dourado de todos, filho de Júpiter. A única pessoa que já me aceitou foi Bianca, e ela morreu! Não escolhi nada disso. Meu pai, meus sentimentos…” (Nico di Ângelo diz à Jason Grace em A Casa de Hades)

Imagem do Pinterest – Nico di Ângelo

“Já ouvi ‘especialistas’ dizendo que pessoas autistas tem problemas com empatia. Mas ás vezes me pergunto se eles já se sentaram para conversar com pessoas autistas. […]” (Pensamentos de Ana Dakkar em A Filha das Profundezas)

Ester Harding, do livro A Filha das Profundezas, é membro da Casa Orca cujas habilidades estão, em geral, voltadas para medicina. Esther é autista e tem um cão de apoio emocional, chamado Top. Ela é a melhor de sua casa e constantemente está perto da protagonista e melhor amiga, Ana Dakkar, oferecendo seus conselhos e ponto de vista mesmo não sendo a líder da Casa Orca.

“[…] Decido manter Ester por perto sempre que estiver a bordo e vou sempre levar seus avisos a sério.” (Pensamentos de Ana Dakkar em A Filha das Profundezas)

Imagem do Pinterest – Ester Harding e Top

Chegando ao fim, este universo abarca os corações de muitos leitores, despertando a empatia sobre o processo de autodescoberta e aceitação de quem você é, compartilhando momentos de medo, receio ou raiva que os personagens tem de serem classificados como anormais ou como se fossem defeituosos apenas por serem quem são. O Riordanverso não permitiu só que as crianças sonhassem em ser heroínas, permitiu a alguns se sentirem apenas humanos tentando dar o seu melhor e viver o seu melhor independente do que esperem ou tentem dizer a você. Como disse Alex Fierro em O Navio dos Mortos: “Sejam esquisitos com orgulho” […].

sarahellen
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